Matando a Sede com Futebol

Outubro 2, 2009

Quando recebi o convite para escrever um post onde o assunto principal é futebol e desenvolvimento humano, fui buscar inspiração na minha história passada. Conclui que, entre todos os esportes que me foram apresentados durante a infância, o futebol sempre me fascinou. Não só por que no imaginário infantil ele representa uma grande festa colorida, mas também por que era e ainda é o esporte que mais me emociona. Assistindo a uma partida de futebol, posso ser livre para expressar o melhor e o pior que há em mim. Entre os folguedos da comemoração de um gol, a glória absoluta; diante de uma falha interpretada como imperdoável, a raiva, o chingamento, a inconformação. Nascida numa família de são-paulinos fanáticos, que ouviam as partidas no pequeno rádio de pilha debaixo do travesseiro, muito cedo percebi o que era marcar gol contra. Assim, o Corinthians foi eleito o time do coração! Na modesta sede daquele clube, dividi espaço na piscina olímpica com personagens como Sócrates, Biro-Biro, Romeu e Zé Maria. Naquela época, o futebol não era o grande business que é hoje, e os jogadores pareciam ser pessoas comuns, e não aspirantes de um império, com todas as pompas e circunstâncias (principalmente) que hoje isso representa. Passados muitos anos, tendo tido várias oportunidades de voar para a Europa, vi e conversei com alguns candidatos a estrelas do futebol. Em geral era toda uma família que, através do esporte, deixava um passado geralmente humilde no Brasil, rumo a um suposto paraíso. O todo lhes parecia sempre melhor do que a própria terra. Nunca percebi nessas pessoas alguma preocupação com a nova língua, os costumes, preconceitos de raça ou origem. Nada. Vi apenas alegria e orgulho: eram a esperança em pessoa. Um dia, viajei ao lado de um jovem que não tinha mais de 18 anos. Tímido, ele contou que vinha de Goiás e ia para um time da região do Vêneto. Sua primeira viagem de avião foi a da sua cidade para São Paulo, da qual agora se dirigia para Milão. Ele era o primeiro na história de sua família a fazer algo do gênero. Estava tenso e mal se mexia na poltrona do avião. A maior apreensão era saber quantas horas ainda faltavam para chegarmos. Eu lhe perguntei se conhecia alguém do time e se falava algo em italiano: ele estaria só no alojamento do clube, mas um professor o esperava para as primeiras lições no dia seguinte. Havia muita tensão por causa do vôo em si, nenhum medo da nova vida. Então ele me falou: a única coisa que me importa é fazer bem o que mais gosto de fazer, jogar futebol! Lembrando de todos esses fatos, entendi claramente a importância do esporte na vida de atletas e torcedores. Nada de glamour ou teorias psicológicas sobre pertencer a um grupo. O esporte, antes de tudo, move as pessoas porque ele é capaz de dar sentido às suas vidas. Não seria isso o que nos move ao longo de toda a nossa existência, a sede de sentido? Felizes aqueles que, por meio do esporte, chegam mais rápido a esse objetivo.

Cristina Almeida, sócia da Italianova,  é jornalista-redatora especializada em Saúde e colaboradora do UOL Ciência& Saúde e Revista Viva Saúde. Especializada em comunicação interativa, mantém o Blog – De caso com a Medicina, e participa de outros webblogs na qualidade de redatora convidada.
Para saber mais: http://www.decasocomamedicina.wordpress.com